ARTIGO
PESQUE E SOLTE : PRATIQUE ESTA IDÉIA
Texto do PNDPA, uma colaboração de Fernando J. Rossato que sugere esta leitura para nossa reflexão e divulgação destas idéias.

Desde o início da humanidade, a pesca vem sendo praticada como uma atividade de subsistência do homem. O instinto de sobrevivência fez com que o ser humano buscasse na natureza alimentos saudáveis e fartos, e por meio da pesca também encontrou o que necessitava.
Métodos e técnicas foram desenvolvidos com o intuito de entender cada vez mais o comportamento dos peixes e facilitar sua captura. Com o passar dos anos, o ser humano foi modificando o seu modo de vida e a sua relação com o meio ambiente.
Com essas mudanças, a pesca assumiu valores diferentes e passou a representar, além de um meio de subsistência, uma importante alternativa de lazer. Daí a ser considerada um esporte e um segmento econômico foi só uma questão de tempo.
Pesque e Solte.
Como o próprio nome diz, é o ato de pescar o peixe, Admirá-lo, fotografa-lo e devolve-lo à água em perfeitas condições de sobrevivência. É fundamental entender que na pesca esportiva o maior atrativo do turista pescador é o peixe, de preferência em quantidade e de bom tamanho. A atitude de devolver o peixe com vida à água, independentemente de estar dentro ou não das medidas estabelecidas pela legislação, deve ser praticada por todas as pessoas que dependem da manutenção da pesca esportiva, como garantia de lazer ou emprego.
Um dos papéis mais importantes do guia de pesca, até como garantia de sobrevivência do seu emprego, é manter e conservar seu ambiente de trabalho, ou seja, o meio ambiente. Não há hotel pesqueiro nem emprego que sobrevive sem que o meio ambiente esteja em condições adequadas para o desenvolvimento das várias espécies de peixes. Dado ao tempo necessário para que um peixe cresça e atinja tamanho para atrair o turista, a sua soltura é uma das bases fundamentais para que a pesca esportiva cresça e se estabeleça de forma sólida e duradoura.
Mesmo havendo muitos outros fatores que afetam e impactam os cardumes, como retirada da mata ciliar, garimpo, poluição, etc, já é um bom começo, se cada um der a sua cota da contribuição para o desenvolvimento do setor. Deve-se ter prazer ao devolver um peixe à água para que ele possa, novamente, ser pescado e dar ao turista uma grande alegria ao praticar esse esporte.
Na Argentina, nas regiões de pesca de Truta, o processo de soltar o peixe já está bem incorporado por todos e os estudos locais mostram que um peixe chega a ser pego até nove vezes por temporada, gerando muito mais recursos ao setor do que se fosse morto quando pescado pela primeira vez. Algumas experiências no Brasil realizadas em regiões estabelecidas como reserva ecológica de pesca esportiva, onde o turista pode pescar e comer o que quiser no local, mas não pode levar nenhum exemplar, estão sendo muito bem sucedidas e estão atraindo cada vez mais pescadores preocupados com a manutenção do seu esporte preferido.
Mas, para que o sistema de pescar e soltar funcione e traga benefícios é importante saber essa devolução de modo correto, de tal forma que o peixe possa sobreviver e continuar e se desenvolver.
Regras importantes para garantir a soltura.
Equipamentos.
Pescar com equipamentos condizentes ao peixe e ao ambiente. Uma linha muito fina para a situação pode fazer com que a briga demore demais, cansando o peixe além da sua capacidade de resistência.
Anzol.
A utilização de anzol sem farpa machuca menos o peixe, principalmente na hora da retirada do anzol. A sensação de que o peixe escapa com facilidade pela não utilização da farpa não corresponde à realidade. Mesmo no caso de peixes saltadores, basta o pescador evitar que a linha bambeie. Além disso, no caso de um acidente com o pescador, fica bem mais fácil e menos doloroso retirar o anzol do corpo. Em algumas pescarias (pesca oceânica) é comum se cortar a linha para liberação do peixe. Nesta situação, é recomendado o uso de anzol feito com material de rápida corrosão, para que em poucos dias se solte da boca do peixe. Não se deve cortar a linha próximo ao anzol, pois um pequeno pedaço de linha é pouco flexível e poderá perfurar o estômago do peixe se ele vier a engolir o anzol; 50 cm são suficientes para manter a flexibilidade da linha.
Passaguá / Alicate / Bicheiro.
O ideal é não usar nenhum equipamento para retirar o peixe da água. Se fosse possível só manusear os peixes com as mãos e de preferência molhadas, esse seria o meio mais recomendável. Como existem situações em que o pescador precisa usar o recurso de um equipamento, é melhor saber sobre os métodos tradicionais, suas vantagens e desvantagens.
Passaguá: prático e eficiente, dá bastante segurança ao pescador. Por outro lado, o contato do peixe com a rede é prejudicial retirando boa parte de sua mucosa e até algumas escamas, diminuindo a resistência e facilitando infecções por vírus e bactérias.
Alicate de contenção: como o alicate foi desenvolvido especificamente para este fim, é fácil de se usar e proporcionar um bom domínio sobre o peixe. Por só prender pela boca, não causa nenhum prejuízo às demais partes do animal. Na parte inferior da boca, pode arranhar o tecido bucal ou, em algumas espécies, pressionar parte da guelra.
Bicheiro: bicheiros pequenos, desenvolvidos para tirar o peixe da água, são eficientes e deixam os peixes quase sem nenhuma marca, se forem utilizados corretamente. O bicheiro é sempre introduzido de dentro da boca para fora, devendo perfurar a fina pele existente por detrás da mandíbula. Se mal usado, pode machucar perfurando outras partes da boca do peixe.
Tempo fora da água.
Quanto menor for o tempo de permanência do peixe fora da água, maior será a garantia de sua sobrevivência. Não há regra básica para cada espécie, pois depende de vários fatores, como tempo de briga e estado de cada peixe. O que se percebe claramente é que as espécies de escama possuem bem menos resistência que as espécies de couro. Peixes que vivem em águas mais rápidas e oxigenadas, normalmente possuem menor resistência fora da água que os de outros ambientes. No entanto, o tempo que se pode manter um peixe fora da água é suficiente para retirar o anzol, admira-lo e fotografa-lo, antes da soltura.
Queda do peixe.
Esse é um dos fatores mais prejudiciais à saúde do peixe. Cair das mãos, batendo no barco ou nas pedras é bastante comprometedor, não sendo raro o peixe morrer com o baque.
Guelra.
Sob nenhuma condição deve-se colocar a mão na guelra dos peixes. Por ser zona de grande irrigação sangüínea, é uma porta aberta para infecções.
Mãos.
De preferência, deve-se manusear o peixe com as mãos molhadas, evitando passá-las pelo corpo do peixe, para não tirar a sua mucosa, importante como defesas de infecções e necessária para a sua hidrodinâmica.
Soltura.
É importante não jogar o peixe na água, deixando-o ao Deus dará. Cansado e desorientado se torna uma presa fácil para outras espécies predadoras. Colocar o peixe na água, apoiando-o com as mãos por baixo do corpo para que se recupere lentamente e só saia quando estiver em condições e por conta própria é o mais recomendado. Suas chances de defesa aumentam muito.
Local.
Deve-se procurar soltar o peixe na mesma região de sua captura, principalmente a espécies que são moradoras de uma região. Em águas rápidas, se for possível, deve-se solta-lo em um remanso para não obriga-lo a brigar com a correnteza ainda cansado.
Posição.
Fora da água, procure manter o peixe sempre na posição horizontal, pois há espécies que podem ter seus órgãos internos comprimidos se segurados pela boca ou pela cauda.
De qualquer forma, e mesmo que alguns exemplares não sobrevivam, vale a pena praticar a soltura, pois é uma questão matemática.
100 peixes pegos e embarcados = zero de sobrevivência
100 peixes pego, 10 embarcados e 10 que não se recuperarem plenamente, ainda se tem = 80 se reproduzindo normalmente.
Zero é sempre pior que 80
Devolver o peixe à água para se reproduzir é um ato inteligente que garante a reprodução da espécie e a continuidade da pesca esportiva.
Fonte: PNDPA (Programa Nacional Desenvolvimento da Pesca Amadora) - www.ibama.gov.br/pescaamadorar
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